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Natureza madrasta

Sempre ouvi dizer que fazer um canteirinho de temperos é a coisa mais fácil. Que salsinha é mato. Coentro é mato. Manjericão, então, minha filha, é pior que mato. Pois sim.

Do manjericão nem posso falar, que comprei pronto, já com uns 20 centímetros. E veio até com praga de brinde. Mas salsinha e coentro, ô frescas. Comprei sementes de marca boa, botei terrinha em local aprazível, cheguei ao requinte de enterrar na profundidade pedida na embalagem. Hunf.

A salsinha plantei, esperei, olhei… nada. Mas salsinha eu ainda relevava, que gosto muito, mas não tenho assim um amor antigo, daqueles que doem na alma. Brotou uma semente. Só uma. E lá foi ela toda desengonçada, com umas folhinhas esquisitas, e nada das folhas definitivas. Um dia ia dar um almoço e, como o berçário estava morando na minha mesa de jantar, mudei todo mundo pra janela. Achei que ia ser o máximo pra elas, a brisa, o solzinho suave, a natureza. Nada. Foi o fim da minha única salsinha. Naquele dia caiu um temporal, uma ventania sem pai nem mãe, e a salsinha se quebrou ao meio (não que isso seja desculpa, porque aconteceu a mesma coisa com a rúcula e ela está lá, tranquilona, se recompôs. Ao contrário das salsinhas, aparentemente as rúculas não se entregam diante do primeiro contratempo. Garrei implicância de salsinha).

Com o coentro foi ainda mais dramático, porque amo coentro, tenho planos para o coentro, penso nele em horas impróprias. Sentei pra plantar e foi o primeiro saquinho que escolhi. Achei as sementes lindas, fiz os buraquinhos, cobri com esperança. E nada. Se-ma-nas se passando e nada. Esperei, olhei, pedi: “nasceeeeee”, mas ele nem aí. Praticamente um porquinho-da-índia. Aí me rebelei, resolvi jogar umas sementes assim a céu aberto, na natureza selvagem do terraço, pra mostrar logo de uma vez quem é a espécie dominante por aqui. E, olha, cheguei à conclusão de que coentro é tempero de malandro. Não só nasceu super rápido, como nasceu gêmeo. Achei lindo. Esqueci nossas desavenças, voltei a pensar nos momentos que passaremos juntos num ménage com umas batatas ao forno. Estou quase consentindo em achar que a natureza não é assim tão madrasta.

Coentros gêmeos selvagens, ainda com a sementinha.

Os tomates revolucionários

Outro dia abriu um supermercado novo perto da minha casa e, como aqui não tem nada, lá fui eu que nem gente do interior ver a novidade. Fantástico. Frutas extraterrestres, legumes diamantinos, verduras quase arrancadas do pé pelo cliente. Tudo lindo.

Voltei pra casa com umas broas de milho, uns limões e um sacão de tomates gigantes. Nem tinha o que fazer com tal quantidade tomate, mas eram tão lindos e tão deliciosos, que acabei comendo tomate de todos os jeitos naquela semana, e tanto me apeguei que meio que sofri com a iminência de não poder mais comê-los. Aí, tirando as sementes de uma rodela aleatória, resolvi jogar num vasinho que já tinha um tempo amargava ser a morada final de uma samambaia defunta (história triste).

O quintal da minha avó

O quintal da minha avó era simples, mas pra mim era um mundo. Da casa até a entrada ia um caminho de cimento que dava no meu ponto de observação. Ali eu passava o que me pareciam horas observando o Méier, reparando na textura áspera do muro, na copa das árvores, ouvindo os barulhos ao longe em delírio infantil. Na lateral do terreno subiam umas mangueiras gigantescas plantadas pelo meu avô, e o chão era coberto por milhares de moranguinhos, que nós colhíamos e minha avó servia cobertos de açúcar. Também açucarado e inesquecível era o gosto do suco de laranja que bebíamos em canudinhos feitos de galhos de mamão. Outros tempos, ninguém se preocupava com isso. Ali eu fui muito feliz, deitada no chão de tacos aos domingos, um calor absurdo, olhando a vida andar sem mim. Até hoje esse é meio que meu ideal de paz. E é um pouco isso que eu tento reproduzir hoje no meu jardim, essa tranquilidade cheia de cigarras que te permite deitar um pouco no chão na hora do por do sol e pedir pra vida passar um pouco que você volta já já.

Este blog pretende, assim, documentar os progressos do meu jardim e da minha horta recém-nascida. Boa sorte pra mim!